Saúde

Pesquisadora caçapavana fala sobre a legalização da maconha no Canadá

Raquel Razzera Huerta faz doutorado em bioengenharia e processamento de alimentos na Universidade de Alberta no Canadá. É pesquisadora na área de Cannabis e fala sobre legalização, uso recreativo e medicinal da maconha

Por Eduardo Schneider
07/11/2018 09:56
 

Raquel Razzera Huerta é pesquisadora na área da Cannabis (Foto: Divulgação)

Em outubro, o Governo Canadense oficialmente legalizou a venda e o uso da planta Cannabis sativa, conhecida popularmente como maconha, para o uso recreativo e medicinal. O país, que já havia permitido o uso medicinal da maconha desde 2001, hoje é o segundo no mundo a legalizar o consumo recreativo da planta, aos passos do Uruguai. Na Holanda e outros países, existe uma tolerância para o consumo, mas não uma legislação.

Quem acompanha de perto esta mudança da legislação é a caçapavana Raquel Razzera Huerta. Ela reside no Canadá há quatro anos. Formou-se em Tecnologia de Alimentos em 2014. No ano seguinte, entrou no doutorado em bioengenharia e processamento de alimentos na Universidade de Alberta, que fica na cidade de Edmonton. Hoje, atua na área de extração de compostos Canabidiol (CBD) e Tetrahidrocanabinol (THC) da folha, flor e caule da planta Cannabis.

Raquel conta que no Canadá, cada estado tem a suas próprias leis e ordens em relação à venda/uso da maconha. A venda legal do produto é realizada somente em comércio autorizado pelo governo local. Explica que hoje, a venda legalizada envolve a planta fresca ou seca, óleos derivados da maconha e sementes para o cultivo. Outros produtos como alimentos com a infusão da planta e concentrados de maconha ainda não estão legalizados e a expectativa é que esses produtos sejam legalizados no segundo semestre de 2019.

“Na maioria dos estados canadenses, adultos com mais de 18 anos estão aptos a comprar maconha em estabelecimentos licenciados ou podem plantar até quatro plantas de maconha por residência (não por pessoa), provindos de sementes legalizadas. Em locais públicos, o indivíduo pode carregar 30g da maconha seca ou o equivalente em infusão de óleos. O porte, produção, distribuição e venda fora destes limites continua sendo ilegal e o indivíduo que for pego fica sujeito a penalidades criminais tais como multa e até 14 anos de reclusão. Assim como beber e dirigir é ilegal no Canadá, dirigir sob os efeitos entorpecentes da maconha também infringe as leis Canadenses”, afirma.

Para saber sobre a procedência, Raquel explica que no Canadá a maconha, quando legalizada, deve conter um adesivo que possui características de segurança semelhares a passaportes e cédulas. Além disso, assim como o cigarro, produtos comercializados de maconha devem obrigatoriamente conter avisos de saúde e possíveis riscos associados com o uso do produto.

Uso recreativo e medicinal
A pesquisadora esclarece que existem dois tipos mais comuns da planta, a maconha para o uso recreativo e a maconha medicinal. Destaca que a planta Cannabis contém mais de 100 tipos de Canabinoides, onde o Tetrahidrocanabinol (THC) é abundante na maconha de uso recreativo e o Canabidiol (CBD) é característico da maconha medicinal.

Maconha Canada
“O ser humano contem receptores de canabinoides localizados no sistema nervoso central e no sistema periférico. A maconha recreativa, rica em THC, atua principalmente nos receptores do sistema nervoso central, associados ao controle motor, resposta emocional, hipotermia e trato gastrointestinal. Todavia, devido à interação do THC com o sistema nervoso central, a maconha recreativa também é conhecida por causar efeitos psicoativos, ou seja, causa euforia. Por outro lado, a maconha medicinal, rica em CBD, ativa somente os receptores do sistema periférico, colaborando principalmente com o sistema imunológico e não causando nenhum efeito psicoativo, usada para reduzir a ansiedade”.

Quanto à maconha medicinal, os estudos têm sido amplamente destinados para desvendar sobre o alívio de várias formas de doenças, incluindo convulsões, espasmos musculares, ansiedade, náusea, dor crônica, inflamação, insônia, dentre outros.

“Sobre o tratamento da doença de Parkinson, por exemplo, existem pesquisas que comprovam uma melhora nos espasmos musculares e coordenação motora. A área científica comprovou que os canabinoides da maconha medicinal se ligam ao sistema nervoso central e este, por sua vez, tem controle da coordenação motora. No entanto, não podemos afirmar que o uso da maconha medicinal pode controlar a coordenação motora de todos os pacientes que sofrem Parkinson porque é muito relativo a cada indivíduo”, ressalta.

O maior objetivo da legalização da maconha no Canada é a redução do mercado ilegal e a facilitação do uso medicinal da planta. Os reflexos deste cenário podem ser sentidos no Brasil. Algumas empresas canadenses de maconha como a Canopy Growth e Aurora Cannabis já tem aquisições de centros de pesquisa no país sul americano.

Pesquisas no Brasil

No Brasil, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso terapêutico de CBD em janeiro de 2015 e em 2017 aprovou o registro do primeiro medicamento específico Mevatyl® que contem 27mg/mL de THC e 25 mg/mL de CBD, na forma farmacêutica solução oral (spray). O medicamento pode ser indicado para tratamento e contração muscular ligada a esclerose múltipla, porém o processo para conseguir o produto importado demanda de uma receita especial com o médico e consequente aprovação da ANVISA. 

Hoje, Raquel Huerta é uma das colaboradoras com as pesquisas na área da Cannabis na Radient Technologies, uma subsidiária da Aurora Cannabis. Para a pesquisadora, o mercado da maconha é promissor para o uso medicinal, mas devido à divergência de leis entre os estados e os países ainda há barreiras na pesquisa científica e aceitação pública. 


Por Eduardo Schneider

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