Opinião

A educação e as aparências - Leia a crônica do professor Edison Krusser

Por farrapo.rs
08/01/2020 16:24
 

Certa vez escrevi à Professora Dra. Sandra Richter da UNISC, em ocasião que tratávamos de Educação e Filosofia. Neste tempo, já o tempo, me desacomodava. Logo lhe lancei um aviso importante:

- É altamente recomendável que a leitura do texto a seguir seja precedida de um gole de nostalgia (materializada em vinho, suco de uva ou café moído na hora, dependendo do momento e local) e acompanhada de acordes de jazz (gênero que tem como elemento essencial a improvisação), ou apreciando seu Petit Gâteau, deitado em louça branca. Já que lerás este texto apenas uma vez, sua percepção jamais se repetirá lendo-o outras vezes. Eis uma provocação!

Da plataforma de uma cadeira, um salto, um mergulho, de cabeça, entre o arco formado pelos braços do dançarino que espera embaixo, ao lado. Eis a cena que me inspira para este texto, na concepção de Pina Bausch, em filme de Wim Wenders. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Pina_Bausch).

Não posso ficar muito tempo nessa plataforma. Envelheço com maior velocidade. Minhas rugas se proliferam, meus cabelos naturalmente esbranquiçam, o abdome se contrai e fica. Definho. Orbito. O salto, lá, é entrar numa dimensão rejuvenescedora.   Por isso conclamo mitológicos do tempo: khrónos, kairós e Aíôn.

Khrónos costuma ser linearmente implacável. Puxa meus cabelos que ainda restam, e desgrenhados. Vejo-os, seguidamente caídos ao chão, como que me lembrando da infância quando brincava na terra e que queria voar rapidamente para ser adulto. Ah! Ser adulto é um fardo (de porquês). Ser criança é um vácuo a ser preenchido.

A autonomia é pesada e acarreta muitas responsabilidades e, uma das maiores é saber administrar o tempo. A criança quer que ele corra. Agora eu quero que ele sente-se e bata um bom papo, do tipo: - Eu sei que nasceste aos três anos e meio, chorando, em cima de uma mesa! Eu digo: retribuirás isso lá no meu fim terreno?

Aíôn quer que eu jogue intensamente. Sempre vivi o jogo. Adoro pagar para ver. Acredito em mim, mas o incerto, o aventureiro e os desejos que me assolam, esses sim fascinam.

Preciso dessa outra dimensão para, lá, aproveitar a oportunidade que se manifesta e se coloca ante minha existência e criar com Kairós. Criar ardilosamente uma maneira de enganar Khrónos. Por isso confio que precisaremos de uma aliança com Aíôn. Kairós e Aíôn juntos pensando na criação de um jogo que não tenha a última fase.

A morte em Khrónos nos dá medo? (é depois dela que habitamos a transcendência). E só em Khrónos morremos. Ainda há outros modos de fuga. Não concordas? Então me mate em outro tempo! Ou então me mate como os gregos mataram o sábio e seja Minha Amiga. Segundo Bauman, em Vidas Desperdiçadas (2005, p.118), “... na infinitude, indivíduos humanos podem desaparecer da vista dos mortais, mas ninguém mergulha irreversivelmente no nada...”, e eu diria que: - Nem para fugir dos pecados!

Outras vezes, meu mundo adquire aceleração e me assusta. Piso em tudo e não acho freios. É tudo tão movediço, escorregadio, efêmero, que deixo escapar o que penso em dados momentos, depois lembro, retomo e reesqueço. Certas visões nos tiram o chão existencial e rumamos às utopias.

Assim, daquela vez, vi a pedagoga de dança Pina Bausch. Pensando em suas coreografias que utilizavam histórias de vida de seus próprios bailarinos, me arrisco a tentar pensar que vivemos dias de (in)certezas. Nestes iniciais de 2020, continuamos envoltos pelas buscas de estabilidade física, intelectual, espiritual e, talvez, outras.

Leonardo Boff, teólogo contemporâneo e colega de estudos dos Dois Papas, diz que, em uma analogia com a árvore, pelas raízes centramos em nosso universo material, palpável, imanente e nos direcionamos para o universo metafísico pensando em transcender, jogar o crescimento de nossos galhos às direções do infinito.

Diria Zygmunt Bauman que, contamos nosso tempo, envoltos ou submetidos a uma fluidez nas relações culturais na contemporaneidade, atravessados por uma efemeridade pós-luz, em tempos pós-modernos, produtores de refugos humanos. Seríamos então, descartáveis e/ou substituíveis em nossos devires?

Estabeleci este breve e improvável diálogo para pensar sobre uma sociedade que tem uma relação de amor e ódio com o consumo, não necessariamente nessa mesma ordem e intensidade, mas que com raras exceções, fomenta o ter ao ser. Que faz Freud “entrar nesta conversa” e contorcer-se em seu estado atual, querendo, como tal, olhar para seu centro de mundo.

Assim buscamos vender a esse mundo globalizado (paradoxalmente excludente), pelas mídias (sociais ou nem tanto), uma imagem do que gostaríamos de ser, enfatizando nosso ter. Parecer feliz aos olhos dos outros, funciona como a fantasia da imagem que seria a minha, refletindo os bailarinos de nós mesmos, em frente aos espelhos que já não são mais os nossos. Mas, continuamos com medo da última fase do jogo.

Quase ao final deste texto vou me dar conta de outras curiosidades, que são passíveis para outra conversa. Os fatos de Pina Bausch e um dos Papas citados, o Joseph Aloisius Ratzinger – Bento XVI e o cineasta Wim Wenders serem conterrâneos alemães (e daí?); que Wim filmou o documentário do outro, chamado “Papa Francisco, um Homem de Palavra”, o nosso Argentino: Jorge Mario Bergoglio.

Lembrei-me de dizer tais coisas, numa tentativa de demonstrar o quanto é possível articular fragmentos de conhecimento e estabelecer uma conversa coerente e de viés cultural (qual não é?). Para alimentar um bate-papo ao som de Jazz.

Em tempo, Leonardo Boff estudou teologia com Bergoglio na Argentina e submeteu sua tese de doutorado à Ratzinger, em período que Boff defendia certa ideologia tangente à da Igreja Católica. Em nossos dias é o cineasta brasileiro Fernando Meirelles que nos brinda com o filme “Dois Papas”. São personagens que se construíram em um cenário pós-Segunda Guerra Mundial e que agora são oportunamente lembrados aqui. Por que será? – Bauman indicaria perguntar para Freud. (Ele diria que “sofremos de reminiscências que se curam lembrando”). Mas, eles já transcenderam...

Assim, as lutas e as resistências em busca da Paz e de outras coisas humano-terrenas testemunham certo caráter para além do imanente.

Se não podemos decidir os destinos do mundo, ao menos precisamos pensar em como sermos mais humildes, caridosos e voluntariosos com os mais necessitados, neste espaço e tempo, nos quais já nascemos com um prazo de validade grafado com “tinta de limão”, para viver neste colossal universo de aparências e interesses de todas as proporções e possibilidades.

- Ah! Com a Graça Divina, a professora Sandra faz-se uma intelectual inspiradora e maravilhosa, para pensarmos tais tempos.

Abraços e até breve!

Professor Edison Krusser
*Mestre e Doutorando em Educação pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.

E-mail: earank@farrapo.com.br


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