Opinião

"Morte e vida sinfrônia", uma crônica sobre um contador de estórias em Caçapava do Sul

Por farrapo.rs
05/05/2020 10:42
 

Morte e vida sinfrônia

Foto: Reprodução/Ilustração
Esta história envolve um personagem caçapavano que existiu de fato. Os acontecimentos datam mais ou menos da virada do século.

“Oh, Baixinho!” “E aí, ‘Rugério’?!” “Tudo bom, seu E.?” “Tudo... Tudo bem, graças a Deus!” “Vim bater o ponto, aqui com ‘vuceis’, oh, oh, oh, oh, oh!” Seu E. M. era uma ‘figurinha’. Praticamente todo dia, ali pelas duas e pouco, ele surgia, com o seu carisma e seu caminhar lento, mas não menos simpático.

Eram longas narrações; histórias (e, a maioria, estórias) de vida de um longevo homem. Quase invariavelmente tratavam do 3º Grupo de Artilharia de Campanha do Regimento Mallet. Suas narrativas me lembravam as de João Simões Lopes Neto e os “Casos do Romualdo”. Loquaz ele era; parecia ter de pôr para fora todas as palavras do mundo, todas as palavras da vida.

Seu Geraldo, Rogério e eu éramos os ouvintes. Concordávamos com tudo. Daí provavelmente as razões de ele ter eleito sua plateia preferida, talvez única. Sua quase surdez dificultava um pouco a comunicação, principalmente quando havia mais barulho lá fora, ou veículos passando.

Mas o tempo passou e, a cada semana, tornávamo-nos mais amigos. Até que, um belo dia, combinamos o almoço. No dia seguinte, ninguém iria almoçar em casa. Um daria o refrigerante, outro o arroz, outro a carne pro carreteiro, outro o tomate e a alface, e estaria feita a ‘boia’ bem simples, porém saborosa. Seu Geraldo, praticamente um chef, iria cozinhar no fogareiro da pequena cozinha da loja. E a risada estava garantida. Nossa alegria só seria superada – e bem – pela de Sinfrônio.

Sinfrônio era um pouco gabola, sendo sincero. Contudo, suas estórias eram divertidas, em especial pelo jeito como ele as contava, invariavelmente exagerando algumas nuanças. Como jogador de futebol, não era craque, no entanto era sempre ele quem decidia a favor de seu time. Nunca começava jogando, mas entrava no decorrer da partida (após muita insistência de amigos) e, ou marcava o golden goal ou dava o passe para tal.

Galã, suas conquistas amorosas sempre tinham um final surpreso e feliz. Frequentemente queria dar-nos conselhos, como se faz, como não se faz com as mulheres. Era um manual de instruções de como conquistar uma dama.

Como nossos ‘encontros’ eram sempre na loja onde trabalhávamos, começou a comprar. A conta, nunca pagava em dia. Os atrasos aumentaram, e o chefe proibiu que vendêssemos mais para ele, a não ser à vista. Preocupados, achamos que era o prenúncio do fim das longas narrativas que entretinham nossas tardes belas de sol, e até mesmo aquelas chuvosas, úmidas, frias, em que quase nenhum comprador adentrava o recinto.

No entanto, para nossa surpresa, não foi isso que ocorreu. Poucos dias após, lá estava ele, com a costumeira camisa quadriculada por dentro da calça jeans e o seu caminhar inigualável. Radiante, preocupava-se rapidamente em iniciar a ‘estória do dia’. Quanto à conta, só se dava ao trabalho de dizer com economias vocabulares que a pagaria na semana seguinte.

Foi aí que percebemos os três a real importância que tínhamos na vida de Sinfrônio (e ele na nossa, claro). Sua assiduidade e quase pontualidade eram a mola propulsora de sua existência, pois era só do que necessitava para garantir a plateia de ouvintes, que com certeza estaria lá, a seu aguardo.

Brincávamos muito com ele. Um dia, inclusive inventamos um microfone e uma filmadora; de mentirinha, claro; e o entrevistamos. As funcionárias da escolinha infantil que ficava em frente riam sem parar. E ele, percebido, entrava na brincadeira e começava suas ‘aventuras’.

Até que Sinfrônio não mais apareceu. Quem apareceu foi sua filha, de trinta e poucos anos. Seu pai adoecera de um acidente vascular cerebral. Marcamos a visita.

No dia, levamos mais um amigo a quem, de cara, Sinfrônio alcunhou de Alemão. Mesmo na cama, com soro e sem mexer um lado inteiro do corpo, as narrativas foram garantidas. Foi um festival de samba e pagode só com sons provenientes das nossas bocas e batidas na perna, mas foi alegre. Sua filha, que estava na sala ao lado com uma tia, era só gargalhadas. Penso que ali também foram garantidos mais alguns dias de vida sinfrônia.

O segundo derrame cerebral tirou de Sinfrônio definitivamente a alegria. E nós ficamos órfãos dessa verdadeira literatura ambulante.

Nossas tardes nunca mais foram as mesmas. Os dias acinzentaram-se para sempre.

Cristiano Porto Alves
Graduado em Letras Português-Espanhol pela FURG
Professor da Escola Gladi Machado Garcia (em Minas do Camaquã)


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