Opinião

Lições que não aprendemos

26/05/2020 17:14
 

 

Neste lugarejo, algumas pessoas são arredias; não sei por quê. Há quem diga que é cultural, que é regional, é do gaúcho do campo. Alguns afirmam ser apenas impressão. Talvez. Eu mesmo, se não era, tornei-me. O certo é que toda a regra tem exceção.

            Uma professora da única escola do lugar era a exceção; e isso me parecia ser unânime. Para onde ela ia, ou onde estava, eram só sorrisos. Todos os dias; sempre. Um fenômeno, eu diria.

            Cativante, ela cativou até uma cadela. Dizem que, há alguns anos, uma família que mudou para Bagé deixou a pobrezinha aqui. Provável que não se adaptaria em uma cidade do porte da Rainha da Fronteira.

            Preta, chamada dessa forma por sua pelagem, resolveu que seu novo paradeiro era o restaurante do Centro Comercial. Por lá ficou dias, semanas, meses. Sempre recebendo os clientes com tamanha alegria, parecia gostar de todos, mesmo dos mais arredios, como eu.

            A cadela era diferente. Nada a ver com sua aparência, absolutamente comum. A diferença ficava mesmo por conta de seu comportamento. Esbanjava felicidade todos os dias, toda hora, para com todos. Quase inverossímil. E inacreditável.

            Um provérbio diz que os iguais se aproximam. Se eu gosto de um estilo de música, será mais fácil me aproximar daqueles que também têm esse apreço. Pois não é que Preta e a professora, distantes poucos metros (a mestre vivia bem pertinho do restaurante), decidiram que deveriam aproximar-se. Na verdade, quem decidiu foi a cachorra. Mudou-se, de mala e cuia, para a residência de sua nova dona.

            A partir daquele dia, a pobre cadela definiu que acompanharia sua dona para onde ela fosse. A escola, destino obviamente rotineiro da professora, recebia todo dia a cadela.

Famosa já na comunidade escolar, acompanhava a sua dona até a porta de todas as salas de aula, e ali ficava, por cinquenta minutos, até que era dado o sinal, a professora trocava de sala e a cachorrinha também. Mas respeitosamente o animal nunca adentrava as salas, apenas ficava a centímetros da porta, atravancando o entra-e-sai de alunos e mestres. Com certeza seu objetivo não era assistir às aulas, mas sim ficar o mais perto possível da sua proprietária. No final do horário escolar, a professora, acompanhada da cachorra, voltava para casa. Não. Não iam juntas, de carro. A cadela seguia o veículo do princípio ao fim.

Certa feita foi veiculada na televisão uma matéria sobre o cachorro Thor, que deixou nossa cidade famosa em todo o Estado. Parecidas as histórias de Thor e de Preta. No caso do cãozinho, o dono morreu e mesmo assim ele realizava o trajeto costumeiro do seu amigo homem assídua e pontualmente.

            Os professores ensinam estequiometria, genética, gramática. Os animais, por sua vez, dão lições ao ser humano todos os dias. Mas essas nós não aprendemos.      

 

Cristiano Porto Alves

Graduado em Letras Português-Espanhol pela FURG

Professor da Escola Gladi Machado Garcia (em Minas do Camaquã)

 

 



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