Opinião

Ser criança naqueles tempos

18/06/2020 15:59
 

Sempre tive vontade de escrever sobre a década de 1980 (e primeiros anos da de 1990), em especial sobre o quão bom era ser criança ou adolescente naqueles tempos. Um pedido de meu compadre Mário Loreto foi o impulso que me faltava.

Na falta de smartphones e brinquedos eletrônicos, jogávamos bola, andávamos de bicicleta. As brincadeiras na terra, na areia, no barro. A bolita, a pandorga, a amarelinha, o dominó, o pião, o jogo de damas, a corrida de saco, o telefone sem fio, o jogo do bafo com as figurinhas de craques da Copa. Jogar bexigas cheias de água uns nos outros, deixando-os molhados, era a diversão. As meninas gostavam mesmo era de pular corda, ou girar e rebolar com o bambolê. Os meninos mais velhos preferiam o futebol de botão.

Uma das mais populares diversões daquela época era a dança das cadeiras, por causa do Xou da Xuxa, sucessor do Balão Mágico, com Jairzinho e Simony. Aliás, das oito da manhã ao meio-dia, a “rainha dos baixinhos” foi por muitos anos a atração das crianças que estudavam à tarde. Seu bordão: “beijinho, beijinho; tchau, tchau”. Quem não se lembra das Paquitas e da Andreia Sorvetão?! Do personagem Dengue, um mosquito enorme, cheio de braços; e do personagem Praga, que fantasiava uma tartaruga?! Brincadeiras e atrações musicais intercalavam com desenhos animados simplesmente inesquecíveis.

Os Flintstones, Caverna do Dragão, Thundercats, He-Man (e seu inimigo mortal Esqueleto), sua irmã She-Ra (e os personagens Arqueiro, Cintilante, Madame Riso, Corujito, Vassourito, todos contra o tirano Hordak e seu exército de mutantes), os Smurfs (e a encantadora Smurfette), as Tartarugas Ninjas, Bibo Pai e Bob Filho, o espirituoso e malandro Manda-Chuva (antes do Acordo Ortográfico, com hífen) – com o amável gato Batatinha e Guarda Belo, um policial à moda americana.

Outras animações incríveis eram Capitão Caverna, Rabugento: O Cão Detetive, Zé Colmeia (e seu inseparável amigo Catatau, sempre tentando roubar cestas de piquenique), Scooby-Doo (e o faminto Salsicha, loucos de medo de fantasmas), Mickey & Donald (quem não se recorda do Pateta e um de seus mais tradicionais desenhos, onde ele canta “ela vem pela montanha, ela vem”?!).

Os Superamigos e a Liga da Justiça, com Lanterna Verde, Mulher Maravilha, Flash, Cyborg, Batman e Robin, Homem Águia e Mulher Águia, Aquaman, liderados pelo Super-Homem, era a minha atração favorita. Seguida de Popeye, o comedor de espinafre, e sua amada Olívia Palito, sempre com problemas com o seu principal inimigo, Brutus.

Simplesmente não dava vontade de sair da frente da televisão. Os aparelhos eram pequenos: geralmente de doze ou catorze polegadas; muitos ainda em preto e branco. Mais para o fim da década, as famílias mais abastadas já adquiriam televisores bem maiores, de vinte polegadas, e em cores. Mas saíamos. Encontrávamos tempo para brincar na rua com os amigos e fazer todos os dias a lição de casa (aliás, severa obrigação à época).

Talvez tenha sido, mesmo, a década dos seriados. Magnum; Profissão: Perigo, com MacGyver; Anjos da Lei; Miami Vice; Casal 20; A Gata e o Rato; Alf, o ETeimoso; O Fantástico Jaspion; Jiraiya: O Incrível Ninja; Esquadrão Relâmpago Changeman; Chaves; Chapolin; Armação Ilimitada, com os surfistas Juba e Lula.

Para ouvir música, os adolescentes tinham o vinil, com seus lados bem definidos, e a fita cassete. O walkman, a sensação portátil da época. A fim de aproveitar as novidades do cinema, o jeito era correr até a locadora mais próxima e alugar uma fita VHS. Não se podia esquecer de rebobinar a fita antes de devolvê-la.

Foi um tempo em que se colecionava tudo, desde tampinhas de garrafa de refrigerante, bolinhas de gude, chaveiros, adesivos, selos, cartões postais, livros da série Vaga-Lume, álbuns de figurinhas (que eram trocadas na escola com o objetivo de completar a coleção). Até papéis de bala, maços de cigarro e cédulas de dinheiro antigas. Papéis de carta e bichinhos de pelúcia era a predileção das meninas. Miniaturas de carrinhos, a dos meninos.

Óbvio que nem tudo eram flores naquela época (e não eram, mesmo!). Mas eu prefiro ficar com as melhores lembranças. Éramos felizes e não sabíamos. Só quem viveu aquela época tem condições de mensurá-la.

 

Cristiano Porto Alves

Graduado em Letras Português-Espanhol, pela FURG

Pós-Graduando em Metodologias de Ensino da Língua Portuguesa e Literatura, pela UNOPAR

Professor da Escola Gladi Machado Garcia (em Minas do Camaquã)

 

 

 



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